5/04/18 em Artigos, Artigos ISO TS e IATF 16949, Notícias, Novidades

IATF 16.949: A indústria de requisitos, treinamentos e manuais ineficazes, cujo resultado é o aumento de recalls de veículos no Brasil

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A IATF 16.949:2016 virou um caderno de encargos de requisitos intermináveis dos clientes automotivos, que infelizmente, acreditam que a qualidade pode ser alcançada com exigências de documentos, manuais, treinamentos e práticas questionáveis e inapropriadas, contempladas tanto nos requisitos da norma, como nos requisitos específicos dos clientes. É um absurdo a redundância de requisitos que estão em vários documentos diferentes, manuais de referências, manual da qualidade de fornecedores, portais etc. É uma burocracia sem fim, cujos resultados no Brasil refletem no aumento do recall. Clique aqui e leia a matéria.

Veja um breve histórico da produção de veículos e n° de recalls nos últimos 5 anos:

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 Claro que não dá para fazer uma relação direta no ano, do n° de recalls x veículos produzidos, mas serve apenas como referência, bem como é possível observar que tirando o pico de 2015, que deve ter acumulado recall de 2014, nos últimos 3 anos o recall vem piorando.

Evidente que alguém pode alegar que é em função da norma ser mal implantada, mas, e o processo de certificação? E as auditorias de sistemas de segunda parte e de processos de clientes nos seus fornecedores; cujas ações solicitadas em geral são a implantação de mais burocracia, controles desnecessários e práticas que não trazem resultados e só encarecem os processos dos fornecedores?

O setor automotivo, está virando um mercado no qual se criam dificuldades, para vender facilidades.

A última novidade, foi a AIAG divulgar provas para as Core Tools (APQP/ PPAP, FMEA, MSA e CEP) para cumprir o requisito da IATF de entendimento dessas ferramentas para auditores de primeira e segunda partes. No meu caso, se algum cliente dos meus clientes exigir esta prova como qualificação para demonstrar entendimento, vou ter que desconsiderar meus mais de 30 anos aplicando e ensinando estas ferramentas para demonstrar entendimento via prova. Os profissionais da qualidade do setor automotivo, parecem estar numa disputa de quem requer mais burocracia; e de exigências que muitas vezes, não são utilizadas nem praticadas internamente.

Quem estudou profundamente a IATF 16.949:2016 e a comparou com a ISO TS 16.949:2009, vai perceber que a grande mudança, foi a inclusão e abordagem da ISO 9001:2015 que tem uma estrutura e conceitos novos, muito diferentes da ISO 9001:2008. Já os requisitos automotivos, praticamente não tiveram alterações, mas sim aumentaram sua quantidade.

Clique aqui e leia nosso artigo sobre as mudanças da IATF 16.949:2016 em números.

Segue tabela que mostra a quantidade de cursos e manuais que organizações devem adquirir, para conhecerem os principais requisitos e ferramentas da IATF 16.949:2016, a fim de implantá-la de forma minimamente consistente para buscar a certificação, considerando o que os principais clientes exigem ou devem passar a exigir: 

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OBSERVAÇÕES IMPORTANTES:

  • Para os cursos abertos, o valor de cada treinamento é para apenas 1 participante;
  • Se considerarmos um único participante da empresa, com salário de R$ 3.106,00 (Analista da Qualidade ou Engenheiro Iniciante) numa empresa média; considerando 70% de benefícios e encargos sociais, este salário corresponderia a um custo mensal para a empresa de R$ 5.280,00 / 176 horas por mês (44 horas por semana), o valor hora deste profissional será de R$ 30,00. Desta forma, se este profissional fosse participar de todos os treinamentos, teríamos um investimento total de mais R$ 4.800,00. Somando os valores de cursos abertos, mais os manuais (R$ 18.169,00) = R$ 22.969,00;
  • Se considerarmos que os cursos serão “in company” e tivermos em média 5 participantes a um valor/ hora de R$ 30,00, teremos um investimento total de mais R$ 24.000,00. Somando os valores de cursos “in company”, mais os manuais (R$ 45.024,00) = R$ 69.024,00;
  • Os valores dos cursos abertos e “in company”, não são valores da ACT, mas sim um preço médio ou específico de algumas entidades deste mercado;
  • As simulações acima não pretendem ser precisas, mas apenas facilitar um cálculo da empresa, utilizando seus próprios dados.
  • A simulação dos custos de implantação dos requisitos estarão num outro artigo, a ser publicado em breve.

Outros Cursos e Requisitos que podem ser exigidos de Clientes Automotivos:

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Observação: há outras exigências que não constam destas tabelas, mas estão em requisitos específicos dos clientes, na maioria com Manuais para seus Fornecedores com em média 50 páginas, com repetição de requisitos que já constam da IATF 16.949, com mudanças que só vão agregar custos para os processos das empresas.

Algumas reflexões sobre todas estas exigências:

  • Certamente, juntando todas estas exigências e manuais teremos centenas e talvez milhares de páginas, cabendo a pergunta: Se nossa organização, que fornece apenas produtos injetados, ou estampados, ou usinados ou de um outro tipo de processo do qual dominamos, pois fornecemos há um bom tempo para o mercado, como esses requisitos e exigências vão ajudar nossa organização a se tornar mais competitiva, com processos mais rápidos, mais baratos e  melhor qualidade dos produtos e serviços?
  • Porque fazer auditoria de processos, com base na VDA 6.3, pagando um curso mais caro do que o curso de Lead Auditor da IATF 16.949, se todos os requisitos (leia o manual) desta norma, fazem parte direta ou indiretamente dos requisitos da IATF 16.949?
  • Porque nossa organização, precisa apresentar ou disponibilizar 18 documentos que constam no PPAP, já que grande parte deles não são analisados e são pouco úteis para os clientes, expondo ainda nosso know how, que pode parar num concorrente, já que os profissionais dos clientes não assinam um termo de confidencialidade da nossa documentação?
  • Para que fazer FMEA, que é uma prática da Indústria da Aeronáutica e da NASA, cujas complexidades e gravidades de falhas é incomparavelmente maior do que da  nossa organização, que fornece apenas produtos injetados, ou estampados, ou usinados ou de um outro tipo de processo do qual dominamos, nos obrigando a copiar e colar os documentos, alterando apenas os cabeçalhos, sem fazer de fato previsão de falhas, que é o objetivo dessa ferramenta? Clique aqui e leia artigo sobre aplicação de FMEA no Setor Automotivo.
  • Para que fazer estudos estatísticos de sistemas de medição, se um paquímetro foi projetado para medir comprimento e profundidade, entre outras; um micrômetro para medir diâmetros; um durômetro para medir durezas etc; se as empresas que desenvolveram estes equipamentos, já os estudaram para deixa-los adequados às suas aplicações? Clique aqui e leia artigo de MSA no Setor Automotivo.

Implantar a IATF 16.949 não é difícil, o problema é que está se tornando um fim em si mesma, com requisitos intermináveis, revisados constantemente, com inclusões permanentes e desestruturadas de requisitos e ferramentas que acabam não melhorando a qualidade do setor; ao contrário, tira o foco na melhoria da qualidade dos processos e enfatiza a documentação e burocracia como forma de garantir a qualidade. Os resultados vão no sentido oposto da melhoria, haja vista os altos índices de recalls nos últimos anos. É por isso que metade dos nossos clientes do setor automotivo e muitas organizações, desistiram da IATF 16.949:2016 e partiram para a ISO 9001:2015, a qual de fato,  tem agregado valor para as organizações, mas também, quando bem implementada.

Não adianta as organizações e profissionais da qualidade do setor automotivo insistirem nesta abordagem, porque já está havendo uma tendência de redução de empresas certificadas na IATF 16.949:2016 e não é só devido a crise, mas sim os custos de implantação e manutenção desses sistemas.

A IATF 16.949:2016 não é um sistema de gestão, mas sim um sistema de documentos, incompatível com a abordagem da ISO 9001:2015.

Descobri que quando em 1997 implantei a QS 9000 e só havia requisitos específicos da Ford, Chrysler e GM (em quantidade bem menor que as atuais), eu era feliz e não sabia.

 

Por: Araújo, Manoel Maurício de Souza – Diretor Técnico da ACT Consultoria & Treinamento

Críticas e Comentários: araujo@actconsultoria.com.br

Informações: Telefone: (11) 4224-4335       E-mail: contato@actconsultoria.com.br

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